Cara, Caramba, Cara, Caraô

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natureza morta de Albert Eckhout

Sabem que só hoje, lendo uma Caras antiga, soube que Uanessa Camargo usou o mesmo modelo de vestido de casamento que Christina Ricci (alô, Christina!), a Wandinha Adams. Ta provado então que dinheiro não compra exclusividade, nem manda buscar. Mesmo assim, a neta de Francisco foi a Nova York algumas mil vezes para experimentar aquele que era considerado por ela uma relíquia. Hoje, no máximo, é uma réplica. Notícia velha, mas que é nova, entenderam?

Vou dar uma sugestão a Uanessa, que peça à sua modista de Goiânia transformar os metros de tecido numa linha completa de cama, mesa e banho. E se sobrar pano, capinhas para botijão de gás e liquidificador para a casa nova. O tule vira cortina e mosquiteiro. E pronto, a mais velha de Zilu daria uma customização na casa.

OK, mas o que eu quero tratar é sobre a falta de assunto da mídia brasileira. Percebem que há anos não temos assunto novo? É a Ana Maria Braga assumindo namoro com rapaz vinte gerações mais novo, a Galisteu apresentando novo namorado na Ilha de Caras e a Tati Quebra-Barraco fazendo outra lipo e continuando gorda. Fora a corrupção na política, no futebol, na polícia, na mesa ao lado.

Notem então que o Brasil está do jeito que está porque ninguém dá importância a notícias boas. Temos poucas na verdade, mas temos. Por que fazem um alarde na mídia ocupando papel e pixels divulgando que uma ex-modelo com cara de confeiteira foi vista com a calcinha na bacurinha? E que a Paris Hilton não foi convidada à cerimônia do Oscar? Eu também não fui, quero virar notícia!
Tenho amigos que tropeçam a toda hora, mostram a calcinha e a cueca, fazem compras, falam palavrão, fumam maconha e ninguém fala deles. Mas não irrita o fato de não serem notícia, irrita que eles têm talento e não são notícia. Nesse pequeno rol, encontramos dois artistas plásticos. Um, que também é um ótimo ator, ganha o pão seco numa universidade semi-falida e a outra come o pão que o diabo amassou nas mãos de um projeto de Miranda Priestly com cara de marquise. Tem também uma atriz que se fosse reconhecida pelo talento que tem, não precisava perder noites ímpares do mês limpando bundas sujas. Meu outro amigo, que transborda de idéias sensacionais para preencher lacunas do mundo, trabalha numa empresa que não permite acesso a e-mails pessoais. E ainda mais uma atriz que precisa suportar uma insuportável reclamando que ninguém gosta dela.

Será que o conceito de talento mudou? Vão esvaziar os teatros, as galerias de arte, os bons shows para abarrotar povo suado atrás de trios-elétricos e na frente de concursos de misses brancas quase albinas posando de FPS 50 com faixa de alguma ilha caribenha com nome de incorporadora (Turks and Caicos, por exemplo)?

O Brasil está um espetáculo que faria o Nietzche chorar. O brasileiro é hipócrita disfarçado. Reacionário domesticado, analfabeto social. Brasileiro se acha melhor do que outros quando sua caixa postal acusa mais de vinte e-mails, sendo que metade é propaganda para aumentar o pênis ou emagrecer. Brasileiro faz cabaninha para usar palito e acha que voa alto, mas bate a cabeça no teto rebaixado de gesso. Brasileiro já esqueceu do Ali-Renan e os 40 Ladrões e se concentra no próximo paredão do BBB, deixando espaço livre para que se roube mais. Brasileiro é cara, caramba, cara, caraô.
de copiar.

 

Gabriel Leonardelli

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7 Respostas

  1. Gabinho, Gabinho… adorei o trocadilho do U(w)anessa.
    Ela merece!
    Muita lógica em tudo e escrito de maneira divertida, como sempre. Adorei.
    Beijocas ao meu colega!

  2. É triste, mas há tempos o mal gosto, o descartável e o superficial tomaram conta da mídia brasileira. É revista que tem como único conteúdo a vida pessoal e os bens de “celebridades (e pásmen, as pessoas compram), é programa de tv que expõe o lado mais sujo e podre do ser humano em busca de fama e fortuna (as pessoas assistem e ainda interagem), enfim, são tantas coisas ridículas que me pergunto? vai sobrar espaço pra coisas boas ? Inteligtentes ?
    MAs a resposta, ainda bem, está aqui também. Parabéns pra + movimento !!!

  3. fofoca enlatada

    Eu sempre saudoso, e de olho no passado…
    digo que não existem mais velhinhas “fofoqueiras
    do bairro” parece que até esse aspecto da convivência foi enlatado para o consumo na nossa maravilhosa sociedade globalista!

    Para que conviver com seus vizinhos se pode ter
    o melhor da olhadela, da espiada, feito por “profissionais”….

    vivemos em uma sociedade triste e compulsiva por consumo… e isso invade até mesmo os aspectos sociais mais irrelevantes, como esse virarão uma
    grande industria

  4. hééé, concordo plenamente. a questão é, compramos porque vendem, ou vendem porque compramos? o que nasceu primeiro, a sociedade moderna ou o consumo fútil, e quem transformou quem?
    como sempre, um ótimo texto.
    mun-ha cresceu.
    abs!

  5. Tanto faz.

    Compramos por que queremos e compramos por que vendem.
    Por vaidade, por que as vezes faz bem ter algo novo…

    A troca de dinheiro por mercadorias tenho certeza que foi
    uma das mais importantes evoluções no desenvolvimento
    das sociedades.

    A compra (pelo menos para mim) não é um problema digno
    de tanta atenção, mas sim a idéia capitalista atual (neoliberal,
    globalista, ou como queira chamar) de uma sociedade
    de consumo aonde todos os valores inclusive morais,
    são passíveis dentro de uma relação de troca, aí meu amigo…

    o bicho pega.

    Quando o sistema econômico é muito mais importante
    do que qualquer outra forma de controle, e tudo faz parte
    de relações de troca, e tudo, tudo mesmo pode ser trocado
    por dinheiro ou por semelhante… é realmente um problema.

    T+

  6. Desliguem a Tv …
    . . .
    Trocaremos palavras o dia Inteiro..
    O mundo não múdárá..
    Os livros ficam
    Os amigos vem e vão…
    e a mídia ficará desatualziada até que a Paris Hilton apareça morena..e o Sílvio careca..
    abraços

  7. Liguem a TV!!!
    Mas vejam uma emissora decente,
    não assistam nada
    por assistir…
    Aqui em sampa a TV Cultura manda muito bem…
    Apesar de alguns pesares atuais.

    Claro que a leitura é importante,
    fundamental eu diria! Sacralizar um
    meio de comunicação tão poderoso
    e popular quanto a TV… fala sério!
    Preconceito midiático!

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