Amor

Vou começar o texto parafraseando Chico Buarque, em Tango de Nancy: “quem sou eu para falar de amor, se o amor me consumiu até a espinha”.

O fato é que somos tão inconseqüentes quando amamos, tão ridículos, tão insuportavelmente românticos, que decidi escrever sobre o amor, mesmo sem saber absolutamente nada sobre ele. Se alguém sabe, por favor entra em contato comigo.

A única coisa que sei é que existem milhões de pessoas que sabem do que eu estou falando, essa sensação que não pode ser explicitada em nada palpável. E também sei que me acompanham outras tantas pessoas que escreveram cartas jamais enviadas, que ouviram músicas e choraram e que escutaram que ficariam para sempre com você onde quer que fosse, para todo o sempre, e se você saísse por aí, ela iria junto, e se você fosse para a China, ela iria também, e se você não andasse, ela carregaria você nos braços.

Pois bem, será que complicamos demais o amor? Será que nos deixamos influenciar por questões sociais, por preconceitos burgueses de fidelidade, por denominações desnecessárias? O que é ficar? Namorar? Um mês? Um ano? Dez?

O tempo, esse que cura tantas coisas, também confunde outras tantas. Existe um tempo pré-estipulado para que o relacionamento dê certo? Digo isso porque ouço dizer que “meu namoro não deu certo”. Ele deu sim, pelo tempo que durou. Para dar certo não são necessários dez, vinte anos. Pode dar certo por apenas uma semana, ou o tempo que for.

E o tempo para definir ficada, ou namoro? Não pode se entregar tão cedo, é o que dizem. Mas quanto é esse cedo? E não pode mesmo? E se eu quiser mostrar o que sinto logo, porque amanhã posso ser atropelado? Pois se eu tenho o coração maior do que eu para dar, devo guardá-lo até o momento oportuno? Mas qual o momento oportuno?

Texto cheio de pontos de interrogação esse. Mas o amor é isso, é um ponto de interrogação. E por não termos aprendido nada sobre nada, é que sofremos a dor mais inspiradora e mais perversa: a do sofrimento amoroso. É uma síndrome de rejeição. Não deu certo e você tinha toda certeza que havia achado a pessoa da sua vida. Amor, a idiotice necessária. Primeiro ficamos idiotas, para depois amar e entender que estamos acompanhados pro resto da vida. É como estar debaixo de um edredom, em um dia de chuva. Não tem coisa melhor que isso. Mas aí os canais de comunicação se engarrafam. As necessidades começam a não ser mais supridas. E o coração fica dilatado, a respiração fica pesada. A caixa torácica dói, a postura fica meio curva, e você se levanta e parece que continua colado na cadeira. Por fim, corremos e não saímos do lugar.

E agora o mais absurdo de tudo isso: não há escolha. Quando dizem que Deus deu o livre-arbítrio, quero saber cadê o botão pra isso. Porque não temos o poder de escolha de nos apaixonar. Agora eu quero. Agora não. Agora por aquela. Agora por aquele. Por esse não. Por essa sim.

Não existe botão. É um só caminho, e não existe jeito de escapar dele, quando é só um caminho que se tem pela frente. E então mesmo não querendo vamos de novo pra baixo do edredom de penas, torcendo que dessa vez dure bastante tempo. E começamos outra vez com todos os clichês cafonas de amor. Mas sentimentos são feitos de clichês e de cafonices, não é? É. Pelo menos eu acho. Tenho saudade, amor, neném, ficaria aqui pra sempre, como você é lindo, roupa nova pra ir jantar, a noite mais maravilhosa da minha vida, blábláblá.

Só aprendi, e aprendi com os muito mais velhos, que vale a pena. Amar vale a pena. Se entregando. Errando, levando, caindo, levantando. Amar é chique, como diria Fernanda Young. Mas aqueles amores puros, livres de pré-conceitos.

Amemos. Mesmo sem entender nada sobre isso. Pois quando ficarmos velhos, com certeza vamos saber que valeu a pena. Amo. Ame. Amem. Amei escrever esse texto. Mesmo sem entender quase nada dele.

Gabriel Leonardelli

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8 Respostas

  1. Que soco no estômago esse texto. Adorei. O negócio mesmo é amar, sem medo.
    Parabéns.

  2. O grande problema do amor é nossa incapacidade de vivenciá-lo completamente por causa dos nossos medos de sofrer e até ser feliz, quando aprendermos a amar intensamente o todo do amor conseguiremos ser feliz com nossos amores.
    Adorei o texto!

    Bjs

  3. Gabi, te parabenizo por este texto, te parabenizo por amar e querer ser amado e te parabenizo por ser tão intenso. Poucos conseguem essa façanha e poucos tem a capacidade de amar verdadeiramente. Tu consegue tudo isso.
    Um beijo grande, cheio de AMOR!:)

  4. Fala Gabriel!
    belo texto, parabéns. Falar de amor é difícil, mas porém compreensível para aqueles que se permitem tentar compreendê-lo. Nossa.. me puxei ehehe! abraço.

  5. as vezes amor é tão rápido quanto um sorrir e 45 segundos d’um beijo de adeus-até mais …

    “todas as cartas de amor são ridículas
    não seriam cartas de amor, se não fossem ridículas”

    Àlvaro de campos

    beijo, minha querida

  6. Só para constar aos demais: o beijo de Everton para “minha querida” é para mim 🙂

    Obrigada, querido e belo comentário ao texto do nosso amigo Gabi.

  7. Mandou bem Gabriel.
    Mandou muito bem cara. Só quem leu até o fim sabe o que você realmente quis passar com seu texto. O amor sem limites só entendido por quem disconfia do próprio amor.
    Abraço cara

  8. [BOCA ABERTA] – digo… escancarada!
    MEU DEUS!!!!!!!!
    além desse blog falar de um pedaço de mim a cada post, assustei-me ao ler esse texto
    Parece que eram sugadas pelos olhos enquanto se transformavam em energia e bagunçaram meu corpo, sentidos, e principalemte minha memória. E me fez voltar ao presente numa fração de segundo, e lembrando…
    Que eu sinto tudo isso porque estou amando.
    Se dê ao luxo também!

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