O que ele tem a dizer?

Éver Ribeiro. Quem é? Quem foi? Pra onde vai?

Ele e um cara extremamente simpático, mas quando chove, fica um tantinho de mau humor. Sempre me xinga por gostar de rock e já me entrevistou no Paisanos em Prosa (http://solourbano.blogspot.com/2008/03/paisanos-em-prosa-viii_17.html).

Éver é um cara tranqüilo, se intera de muita coisa culturalmente falando, mas tem lá suas restrições, principalmente no que considera banal.

O cara trouxe uma novidade em seu blog, o Paisanos em Prosa, filhote do SoloUrbano. Achei muito fino, uma idéia genial, por isso, ele está aqui. E também, porque concordo plenamente com sua idéia de aproximação entre amigos. Ele também gostou do resultado do seu blog e da idéia do Podcast (vide fotografia abaixo).

Com orgulho, apresento, Éver Ribeiro, meu amigo.

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Há quanto tempo existe teu blog SoloUrbano? – Acho que começou em 2002, no IG (http://solourbano.blig.ig.com.br), mas pode ter sido antes. Não sou bom com datas e não lembro se o IG foi o primeiro ou segundo host do blog. O primeiro post, no IG, foi ao ar precisamente no dia 16/08/2002, às 13h50 (sei porque fui lá olhar).

Como surgiu a idéia de fazê-lo? – Era uma época em que esse negócio de blogs estava começando. Cadastrei o meu por pura curiosidade. Queria conhecer a ferramenta. No final das contas, criei um carinho pelo hábito de ficar brincando com a linguagem – que era algo que já fazia em cadernos e blocos de nota – e com a comunicação com as pessoas que visitavam o blog. Tanto é assim, que até hoje não sei muito bem como funciona a ferramenta, mas acho que aprendi um monte sobre como comunicar-me.

O blog Paisanos em Prosa é a extensão da seção “paisanos em prosa” do SoloUrbano? – O Paisanos em Prosa é um filho que fugiu de casa porque precisou de mais espaço e liberdade pra aventurar-se.

Como surgiu a idéia de entrevistar teus amigos e qual o requisito para a escolha dos mesmos? – Tem um texto no site do Paisanos (http://paisanosemprosa.podomatic.com ou http://paisanosemprosa.blogspot.com/) onde eu acho que consegui estruturar bem essa resposta. Mas, em suma, e, talvez, estendendo um pouco o que está lá, te digo que o Paisanos é uma forma de trazer meus amigos pra perto de mim e exibi-los para outros amigos e fazer as conexões e colocar todo pessoal em contato e proporcionar diálogos. É também uma forma de olhar pra minha aldeia e para as pessoas comuns que habitam a minha aldeia. Estas pessoas têm muito mais a me dizer do que este bando de celebridades espalhadas por todas as mídias e que só fazem engrossar ainda mais o caldo da futilidade e do vazio. Do medo e do delírio. Sou bairrista. Não tô interessado em saber quantas criancinhas o Michael Jackson já comeu. Quero saber o que pensa o taxista da esquina, o porteiro do meu prédio, o cara que almoça no mesmo restaurante que eu, todo dia. A internet trouxe a idéia de ser possível falar com uma criatura lá na China, mas ela é, também, uma ótima ferramenta pra conectar as pessoas do teu bairro. Até a nona edição do Paisanos, os requisitos básicos para estar lá eram: um, ser meu amigo/conhecido; dois, ter algo a dizer e não ter medo de se revelar; três, ter MSN ( as entrevistas eram feitas por MSN ).

Tu és uma pessoa que está sempre envolvida com os acontecimentos culturais em São Leopoldo. De forma sintética, fale-me sobre como tu vês a cena cultural na cidade.Não acho que eu esteja sempre envolvido com os acontecimentos culturais de São Leopoldo, até porque muitos deles não me interessam. Acho que seria mais próprio dizer que eu tento me envolver com todo tipo de manifestação cultural que gire em torno de uma busca da identidade do meu entorno. Qualquer forma de tentar traduzir, discutir ou simplesmente documentar o que é ser e existir neste momento na confusão de etnias e culturas que é esse vale da morte (leia-se Vale do Sinos) me interessa. São Leopoldo, particularmente, porque é cidade em que moro desde quase sempre. E essa pra mim é uma das funções mais puras da arte. “Acontecimentos culturais” é um termo que só serve aos abobados que precisam fazer o ego e/ou o bolso transbordar. A cultura não precisa de acontecimentos. Ela é o próprio acontecimento e está em tudo, sem alardes, sem hora marcada, sem afinação de orquestra e o silêncio das platéias. Ela é a forma como conduzimos nossa vida.

Como surgiu a idéia de fazer o PODCAST do Paisanos em Prosa? – O Podcast do Paisanos segue a mesma filosofia de sempre. O que muda é que agora meus amigos têm voz. Ano passado convidei dois amigos para fazermos, em vídeo, algumas entrevistas com pessoas ligadas à São Leopoldo e, com isso, montar um documento daquela época na cidade. Acho que o interesse deles não foi tão forte como o meu em terminar a empreitada e, então, o projeto morreu logo após a primeira entrevista. Isso me fez pensar em fazer o Paisanos em vídeo, mas para tanto eu teria que depender de outras pessoas. Então resolvi fazer um programa de áudio, para que eu mesmo pudesse ter controle sob a produção. Não sei se as pessoas têm por hábito, hoje em dia, parar por quarenta minutos pra ficar apenas escutando algo que não seja música… Não sei… Talvez seja algo do século passado. Mas eu realmente não me preocupo com isso. O certo é que estamos nos divertindo fazendo o programa. Eu e os outros três paisanos fixos: o Tchakaruga de Paranaguá, o Zeca Baronio e o Lucas Moreira (o pequeno grande Lucas, cineasta leopoldense, criador do Massacre Cirúrgico, entre outros abusos: procura).

Essa dinâmica tecnológica, tu acreditas que auxilia na inserção das pessoas às informações de modo geral, visto que temos uma cultura de pouca leitura? – Certamente a internet tornou a informação uma coisa bem mais acessível. Mas isso, por si só, não considero uma coisa boa ou ruim. Temos que pensar no tipo de informação a qual passamos a ser expostos e também questionar se precisamos de todo esse volume de bytes espalhados e amontoados em servidores e mais servidores, cada vez mais robustos, por todo o mundo. Mas este tipo de reflexão, imagino, não é para agora. Somos crianças bestas descobrindo um novo brinquedinho. Ainda queremos devorar todas as novidades irresponsavelmente. Demora ainda pra alcançarmos a maturidade digital. Afinal, iPhone pra que? Uma coisa que considero uma grande contribuição da internet é que ela nos impeliu ao convívio com a linguagem escrita – e, conseqüentemente, com a leitura. Falar, a gente pode falar ao vento, sem critérios, sem pensar. A efemeridade da língua falada nos permite isso – pelo menos quando não estamos sendo gravados. Para escrever, por mais informal que seja esta escrita, é preciso um mínimo de estrutura semântica pré-fabricada, é preciso lembrar que temos neurônios e eles têm uma função.

Vejo-te como um cara um tanto polêmico em teus comentários. Não te contorces às opiniões alheias e defende, veementemente tuas opiniões, principalmente quando se trata de rock (risos). – Eu odeio polêmica. Eu defendo minhas idéias com bastante força, mas também sou o primeiro a dar o braço a torcer se tu conseguires me convencer que estou errado. Não sou um cara de certezas, mas de desconfianças. Essa história do rock é uma delas. Quando todas as bandas de São Leopoldo à Ivoti começam a soar como se fossem bandas inglesas, quando todos os adolescentes começam a vestir camisetas pretas e a estética tarja preta vira fetiche é porque alguma coisa está estranha, não achas? Mas enfim, odeio polêmica e não tenho nada a ver com isso, rock nunca foi muito a minha praia.

Já tiveste alguns projetos musicais. Onde foram parar? E o que tens feito nessa área recentemente? – Ganhei um violão de natal com treze anos, do meu pai. Na mesma noite em que ganhei, meu pai me ensinou duas “posições”, “a primeira e a segunda de dó”. Enquanto ficava ouvindo sua lição, me perguntava por que cargas d’água eu iria querer aprender aquele negócio. Um tempo depois, já com algumas músicas que faziam sucesso entre meus contemporâneos embaixo dos dedos e sendo convidado para tocá-las em rodinhas de ocasião, me dei conta que aquele negócio de música era uma baita ferramenta para um cara tímido como eu conseguir se inserir entre a galera. De lá prá cá não larguei mais das cordas. Com o tempo o que era mote para me comunicar com os outros acabou fazendo com que eu conseguisse me comunicar comigo mesmo: comecei a compor músicas. E daí eu já nem me importava mais com as rodinhas de audiência e aceitação. A música passou a significar outra coisa pra mim. Já fiz trilha pra teatro e pra vídeo. Já toquei em teatro e pizzaria. Mas o que mais me dá orgulho de ter participado/criado, foi a banda SINPLATA (http://tramavirtual.uol.com.br/artista.jsp?id=13142). Por tudo. Pelo repertório, pelos parceiros de banda, por ter conseguido mantê-la fiel ao que acreditávamos. O Vinícius, que era o baixista da SINPLATA traduziu o que fazíamos: “A banda (…) explora timbres não usais na música popular atual, enfatizando sua formação de trio com violão e voz, baixo fretless e bateria, e um contexto onde a inexistência da guitarra elétrica – que parece ser uma ‘tábua rasa’ que ‘pasteuriza’ a música popular atual – faz brotar matizes de sons que podem surpreender um ouvinte desavisado.”. Mas, claro, eu e ele somos suspeitos pra falar. Atualmente eu tô brigando com o violocelo pra ver se eu aprendo a tocar e ensaiando com a Melissa Iung – pianista – um repertório que mistura música brasileira meio off-road e um pouco de música erudita.

Hoje em dia, qualquer pessoa vira poeta, radialista, apresentador, artista, etc, etc, através da internet. Não acha que isso pode banalizar um pouco o formato da notícia, do novo, do que realmente importa ser divulgado? – Acho que sim. Mas daí eu te pergunto: o que importa ser divulgado? Acho que a medida que formos maturando nossa relação com as mídias e com a informação e também nossa relação com nosso ego e desejo de aparecer isso tende a minimizar Ou seja: nunca! Hahahaha. Deixa eu colocar aqui um fragmento de um texto que postei no SoloUrbano: “quero espalhar meu olhar sobre o entorno e vociferar minhas traduções. mas jamais impor o que é permanência e o que é passagem. nem o que é relevante. e te dizendo isso, acabo por descobrir uma certeza: o que me é relevante e que considero digno de audiência e eternidade é o afeto. (…)somos todos homens comuns que não conhecem nem suas próprias certezas. porque haveríamos de nos achar relevantes pralém de nós? jogo minhas garrafas ao mar não porque busque salvação, simplesmente porque não sei ser diferente. de resto, quero afeto e a música silenciosa de Peter Gast.” Pra mim é isso. Tudo mundo deve ter o direito de expressar-se da forma como quiser da mesma forma como tem o dever de aceitar o descaso. O que eu acho nocivas são as ferramentas de massificação que, muitas vezes, não te dão direito de escolher o que consumir.

Quem será o próximo entrevistado do Paisanos em Prosa? – O pessoal que faz o “jornal Pois é”. Uma galerinha muito massa que faz um jornal gratuito e alternativo e que, com uma tiragem de 20 mil exemplares espalhados por São Leopoldo e Novo Hamburgo, faz muito mais pelo nosso vale do que o inócuo e cafona Grupo Sinos. Minha opinião, é claro!

Como se sente sendo entrevistado hoje? – Proseando entre amigos.

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Algo a ser comentado depois dessa entrevista? – Ai. Tanta coisa a dizer e tão pouco tempo… Heheheh… Bom, leva isso como um conselho, uma dica, um pedido ou até mesmo como balela: visita o SoloUrbano, escuta o Paisanos, lê a + Movimento, o Pois é, enfim… Te vincula com tudo que existe de genuíno ao teu redor e que não cheire a mofo. E, de preferência, toma parte ativa da construção da tua realidade. Só tu deverias ser responsável por ela.

Tem um cara que desde piá eu gosto muito. Ele se chama Nelson Coelho de Castro. E é ele que imprimo em meu epílogo: “eu não posso me esquecer de nada do que está acontecendo agora, neste momento, nesta cidade, neste estado, neste país, neste planeta. Do que estamos fazendo e o que estamos fazendo para a narrativa da história. Eu quero ver se consigo trazer isso tudo sempre acordado dentro de mim. Este êxtase, esta fotografia, esta música, esse cinema, esse agora, recém parido. Porque é saber isso tudo agora e será saber isso tudo em outro agora, a minha única e verdadeira arma. E isso me excita.”

Confira os trampos dele:

http://solourbano.blogspot.com/

http://paisanosemprosa.blogspot.com/

Cláudia Kunst

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2 Respostas

  1. O Éver tá a cara do Marco Luque nesta foto.

  2. […] Éver, que já esteve aqui, na + movimento falando de suas atividades no meio cultural (clique aqui para ver o post), “é difícil levar público pro palco da biblioteca. Sendo uma produção local, a coisa […]

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