Crescer dói – o Agreste de Newton Moreno

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foto divulgação

O espetáculo “Agreste” (da Cia Razões Inversas, com encenação de Marcio Aurelio), em cartaz no Espaço dos Parlapatões, gera expectativas pelas resenhas atuais e por seus cinco anos de trajetória reconhecidos por crítica e público. A peça estreou no dia 15/01/2004, participou de diversos festivais nacionais e internacionais, como o “Festival de Teatro a Mil”, em Santiago do Chile e o “Brasil em Cena”, em Berlim, Alemanha, e conquistou os prêmios APCA de melhor espetáculo, APCA melhor texto e prêmio Shell de melhor autor.

O dramaturgo Newton Moreno, nessa obra, propõe uma subversão, ao mesmo tempo bretchtiana, multimidiática e lírica, da tragédia grega e do drama clássico, apesar de conservar a moira (destino) e a estrutura em três atos, cada um elucidando essas três características.

Narrativa bretchiana

O primeiro ato, talvez o mais experimental, é amparado basicamente no texto e na interpretação sincronizada. Os atores: dois homens que se vestem no palco. Roupas idênticas e rústicas: calça com elástico e blazer, num tecido que se assemelha à cor e à textura do pelego. Ali, vestidos de condição humana, comum a todos os presentes, os dois iniciam a narrativa: o encontro do amor através da cerca e da necessidade de se preservar distante, protegido, em casa. A luz e o áudio acompanham a entonação e o ritmo da fala dos atores, que por sua vez acompanha a sensação e o ritmo das personagens descritas, que correm para longe de casa, com a impressão de que não vão saber voltar mais. A fala de um homem passa para a boca do outro. Eles se entreolham e tornam-se as personagens que eles mesmos narram. Desfazem a cerca que os separam (composta por blocos de concreto). Fim do primeiro ato.

Multimídia

A transição do primeiro ato para o segundo chama atenção para o cenário, a maneira como ele é econômico, funcional e constituído em cena pelos atores, com a mesma sincronia (no corpo) que já haviam demonstrado (na fala). Afastam os blocos de concreto que os separam, se dirigem à estante de ferro ao fundo do proscênio e de lá retiram estacas de bambu (presas aos blocos de concreto), cordas (que passarão pelas estacas e se amarrarão em ganchos nos blocos de concreto) e panos que constituirão o varal em semicírculo sobre o qual haverá projeções de fotos da fachada de uma casa, no decorrer de todo o ato. Período em que o casal encontra os momentos de euforia, representados pelo sorriso de Etelvaldo: “os dentes que ele não tinha em baixo, tinha em cima, formando assim um sorriso de uma carreira só”. Até o dia em que Etelvado não sorriu mais. Ponto de virada. A morte dele transforma tudo. Fim do segundo ato.

Lirismo

São do terceiro ato, as frases que decoramos de todo o texto. É daqui que sai a incapacidade de sentir por ser incapaz de nomear o sentimento, referência clara a “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos.

No “Agreste” de Newton Moreno, a personagem feminina não sabe o que é o amor porque não sabe que alguém deu outro nome para aquela vontade de morrer junto com Etelvado; que é a mesma vontade que ela sentiu quando a mãe morreu. Queria ir junto. A mãe que sabiamente havia lhe ensinado coisas da maior sabedoria. Na ocasião em que a filha reclamou estar vazando sangue, a mãe, corporificando um mundo já sem grandes reflexões, atentou: “crescer dói, minha filha”.

Após riscar com giz os dois corpos estendidos no chão, percebemos, portanto, o valor icônico daquilo tudo: uma marca de homem, qualquer homem, todos nós.

E a fala que ia além de contar a reação das pessoas da cidade ao ocorrido: “Desenterrando as piores palavras da língua, desenterrando a pior parte deles”. Justo no momento em que Etelvaldo estava à espera de ser enterrado.

Em seguida, a casa ardendo em chamas. Ela sabia um pouco mais do que estava sentindo. Ela sentia, aliás. E ela sabia que estava sentido. E sabia que queria estar ali, de candieiro aceso, velando Etelvaldo, quando enfim tomou coragem para lhe dar o primeiro beijo. A última palavra, otimista: geração. Apagam-se as luzes. Apenas o fogo, queimando…

Livia Lima

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2 Respostas

  1. Magnífico! Fantástico! Incrível!
    O espetáculo foi muito mais que o esperado. Supriendeu a mim e meus amigos. Os atores são muito muito bons. Vale a pena, além do preço acessível, que é um chamariz. Chegue mais cedo pra comprar o seu, as sessões estão sempre lotadas.

  2. não to nem ai só quero divulgar meu twitter segue lá gente @diegunos

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