Archive for the ‘Bela Expedito’ Category

Ninguém se entende
15/03/2008

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Pessoas e a incrível arte da confusão dentro e fora do trânsito.

Ontem fiquei esperando por 25 minutos a topic para ir à faculdade. Enquanto estava ali, numa situação inanimada completa, cansada e com calor, comecei a observar o comportamento das pessoas no trânsito. Eu já tinha uma teoria de que as pessoas andam de carro como se estivessem a pé, da mesma forma que num shopping lotado tem sempre aquela pessoa atrapalhando o fluxo nos corredores, há também motoristas dormindo no trânsito. O sinal abre e somente após 5 segundos é que os carros começam a se movimentar. Têm os apressadinhos, é claro, que buzinam por nada, se irritam com tudo e não dão liberdade de escolha para a pessoa no carro à frente de ultrapassar, dobrar ou estacionar como melhor lhe convir. Criam um nervosismo e são os que verdadeiramente, na minha opinião, atrapalham o trânsito como um todo. Ontem vi uma cena típica: uma mulher no volante, esperando a oportunidade de atravessar enquanto um sujeitinho chato ficava insistentemente buzinando e colocando a cabeça para fora do carro, ameaçando enquanto acelerava. Enfim… Essa cena você já deve ter visto. Resultado: por duas vezes, caso tivesse cedido à pressão, teria grande chance de ter causado um acidente. Claro que este é apenas um caso. Não posso também defender os que dormem em plena rua. São ultrapassagens ousadas, pessoas que parecem ter comprado a carteira, uns fumando, tomando chimarrão e tem até aqueles que ficam conversando com um conhecido do outro carro. É um trânsito com jeitinho brasileiro. Nada de se orgulhar. Cada um por si, o resto que se dane, eu quero chegar antes, nem vem que estou atrasado, e por aí vai. É assim, ninguém mais se entende, até parece que não falamos a mesma língua. Todos estão, excessivamente na defensiva, e muitas vezes penso que as pessoas confundem a vida e o trânsito com os joguinhos de videogame. Como se fossem só desviar, atirar, pular fora, ganhar bônus e destruir o inimigo. Não podemos esquecer que a vida não se joga só; mesmo numa simples espera de topic, estava esperando por alguém. Dependemos sempre de grupos, pessoas. Por que criar tantos mundos individuais e tornar esse mundo tão engarrafado? Precisamos refletir sobre nosso papel de cidadãos e motoristas, porque aqui fora, o game over é bem diferente, não tem segunda chance.
Bela Expedito

Ilustração.: Marcelo Pitel

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A fragilidade do destino dos homens
28/02/2008

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Foto: divulgação

Faz uma semana que vi o filme “O Escafandro e a Borboleta” e as cenas não saem do meu pensamento. São quase duas horas que representam muito mais do que um filme. Aliás, toda história real, por certo, deve criar um sentimento de reflexão. Scaphandre et le Papillon (título original, em francês) ou “O Escafandro e a Borboleta” conta a tragédia ocorrida com o editor-chefe da revista Elle, Jean-Dominique Bauby, que no ápice de seu sucesso profissional sofre um AVC (Acidente Vascular Cerebral) provocando uma rara paralisia, conhecida como “Síndrome do Encarceramento”. Por dentro, por assim dizer, Bauby está em perfeitas condições psicológicas, mantém sua memória intacta e todo seu raciocínio normal, porém, não pode se comunicar externamente. Está paralisado da cabeça aos pés, o único órgão do seu corpo que lhe resta é o olho esquerdo.

Como um verdadeiro obcecado pela vida, Bauby e sua perspicaz fonoaudióloga, começam a se comunicar piscando o olho esquerdo. Uma piscada para responder “sim” e duas para “não”, além da placa de letras do alfabeto organizada pela ordem de freqüência de uso na língua francesa. Através deste meio de comunicação Bauby escreveu o livro que foi traduzido em 30 idiomas e deu origem ao filme. Poucos dias após a edição do livro, em março de 1997, Bauby morreu de pneumonia. Aos 43 anos, o onipotente Editor-Chefe de uma das maiores revistas de moda do mundo, como uma tempestade sem fim, transforma-se como descrição feita por si mesmo “um ser desfigurado, um morto vivo dentro de meu escafandro”, um dependente das adivinhações dos outros. Impressiona-me a fragilidade do destino, a pequenez da nossa existência, a velocidade máxima dos ponteiros do relógio: Bauby permaneceu dois anos neste estado. O filme “O Escafandro e a Borboleta” chegará às telonas brasileiras em março deste ano. É uma excelente indicação de filme, de uma história de resistência, disciplina e fé; e Bauby, um personagem da vida real, hoje faz parte da vida que tanto nos faz questionar. Espero que esteja bem lá em cima, porque aqui embaixo ele deixou seu exemplo de profissionalismo, de grandeza, de garra e de esperança. Sobre o livro que ele escreveu, durante este período, não acabei de ler, mas do ponto onde estou já consigo visualizar a onipotência de seu significado.

site.: lescaphandre-lefilm.com

Bela Expedito