Archive for the ‘Gabriel Leonardelli’ Category

Amor
23/04/2008

Vou começar o texto parafraseando Chico Buarque, em Tango de Nancy: “quem sou eu para falar de amor, se o amor me consumiu até a espinha”.

O fato é que somos tão inconseqüentes quando amamos, tão ridículos, tão insuportavelmente românticos, que decidi escrever sobre o amor, mesmo sem saber absolutamente nada sobre ele. Se alguém sabe, por favor entra em contato comigo.

A única coisa que sei é que existem milhões de pessoas que sabem do que eu estou falando, essa sensação que não pode ser explicitada em nada palpável. E também sei que me acompanham outras tantas pessoas que escreveram cartas jamais enviadas, que ouviram músicas e choraram e que escutaram que ficariam para sempre com você onde quer que fosse, para todo o sempre, e se você saísse por aí, ela iria junto, e se você fosse para a China, ela iria também, e se você não andasse, ela carregaria você nos braços.

Pois bem, será que complicamos demais o amor? Será que nos deixamos influenciar por questões sociais, por preconceitos burgueses de fidelidade, por denominações desnecessárias? O que é ficar? Namorar? Um mês? Um ano? Dez?

O tempo, esse que cura tantas coisas, também confunde outras tantas. Existe um tempo pré-estipulado para que o relacionamento dê certo? Digo isso porque ouço dizer que “meu namoro não deu certo”. Ele deu sim, pelo tempo que durou. Para dar certo não são necessários dez, vinte anos. Pode dar certo por apenas uma semana, ou o tempo que for.

E o tempo para definir ficada, ou namoro? Não pode se entregar tão cedo, é o que dizem. Mas quanto é esse cedo? E não pode mesmo? E se eu quiser mostrar o que sinto logo, porque amanhã posso ser atropelado? Pois se eu tenho o coração maior do que eu para dar, devo guardá-lo até o momento oportuno? Mas qual o momento oportuno?

Texto cheio de pontos de interrogação esse. Mas o amor é isso, é um ponto de interrogação. E por não termos aprendido nada sobre nada, é que sofremos a dor mais inspiradora e mais perversa: a do sofrimento amoroso. É uma síndrome de rejeição. Não deu certo e você tinha toda certeza que havia achado a pessoa da sua vida. Amor, a idiotice necessária. Primeiro ficamos idiotas, para depois amar e entender que estamos acompanhados pro resto da vida. É como estar debaixo de um edredom, em um dia de chuva. Não tem coisa melhor que isso. Mas aí os canais de comunicação se engarrafam. As necessidades começam a não ser mais supridas. E o coração fica dilatado, a respiração fica pesada. A caixa torácica dói, a postura fica meio curva, e você se levanta e parece que continua colado na cadeira. Por fim, corremos e não saímos do lugar.

E agora o mais absurdo de tudo isso: não há escolha. Quando dizem que Deus deu o livre-arbítrio, quero saber cadê o botão pra isso. Porque não temos o poder de escolha de nos apaixonar. Agora eu quero. Agora não. Agora por aquela. Agora por aquele. Por esse não. Por essa sim.

Não existe botão. É um só caminho, e não existe jeito de escapar dele, quando é só um caminho que se tem pela frente. E então mesmo não querendo vamos de novo pra baixo do edredom de penas, torcendo que dessa vez dure bastante tempo. E começamos outra vez com todos os clichês cafonas de amor. Mas sentimentos são feitos de clichês e de cafonices, não é? É. Pelo menos eu acho. Tenho saudade, amor, neném, ficaria aqui pra sempre, como você é lindo, roupa nova pra ir jantar, a noite mais maravilhosa da minha vida, blábláblá.

Só aprendi, e aprendi com os muito mais velhos, que vale a pena. Amar vale a pena. Se entregando. Errando, levando, caindo, levantando. Amar é chique, como diria Fernanda Young. Mas aqueles amores puros, livres de pré-conceitos.

Amemos. Mesmo sem entender nada sobre isso. Pois quando ficarmos velhos, com certeza vamos saber que valeu a pena. Amo. Ame. Amem. Amei escrever esse texto. Mesmo sem entender quase nada dele.

Gabriel Leonardelli

Cara, Caramba, Cara, Caraô
20/02/2008

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natureza morta de Albert Eckhout

Sabem que só hoje, lendo uma Caras antiga, soube que Uanessa Camargo usou o mesmo modelo de vestido de casamento que Christina Ricci (alô, Christina!), a Wandinha Adams. Ta provado então que dinheiro não compra exclusividade, nem manda buscar. Mesmo assim, a neta de Francisco foi a Nova York algumas mil vezes para experimentar aquele que era considerado por ela uma relíquia. Hoje, no máximo, é uma réplica. Notícia velha, mas que é nova, entenderam?

Vou dar uma sugestão a Uanessa, que peça à sua modista de Goiânia transformar os metros de tecido numa linha completa de cama, mesa e banho. E se sobrar pano, capinhas para botijão de gás e liquidificador para a casa nova. O tule vira cortina e mosquiteiro. E pronto, a mais velha de Zilu daria uma customização na casa.

OK, mas o que eu quero tratar é sobre a falta de assunto da mídia brasileira. Percebem que há anos não temos assunto novo? É a Ana Maria Braga assumindo namoro com rapaz vinte gerações mais novo, a Galisteu apresentando novo namorado na Ilha de Caras e a Tati Quebra-Barraco fazendo outra lipo e continuando gorda. Fora a corrupção na política, no futebol, na polícia, na mesa ao lado.

Notem então que o Brasil está do jeito que está porque ninguém dá importância a notícias boas. Temos poucas na verdade, mas temos. Por que fazem um alarde na mídia ocupando papel e pixels divulgando que uma ex-modelo com cara de confeiteira foi vista com a calcinha na bacurinha? E que a Paris Hilton não foi convidada à cerimônia do Oscar? Eu também não fui, quero virar notícia!
Tenho amigos que tropeçam a toda hora, mostram a calcinha e a cueca, fazem compras, falam palavrão, fumam maconha e ninguém fala deles. Mas não irrita o fato de não serem notícia, irrita que eles têm talento e não são notícia. Nesse pequeno rol, encontramos dois artistas plásticos. Um, que também é um ótimo ator, ganha o pão seco numa universidade semi-falida e a outra come o pão que o diabo amassou nas mãos de um projeto de Miranda Priestly com cara de marquise. Tem também uma atriz que se fosse reconhecida pelo talento que tem, não precisava perder noites ímpares do mês limpando bundas sujas. Meu outro amigo, que transborda de idéias sensacionais para preencher lacunas do mundo, trabalha numa empresa que não permite acesso a e-mails pessoais. E ainda mais uma atriz que precisa suportar uma insuportável reclamando que ninguém gosta dela.

Será que o conceito de talento mudou? Vão esvaziar os teatros, as galerias de arte, os bons shows para abarrotar povo suado atrás de trios-elétricos e na frente de concursos de misses brancas quase albinas posando de FPS 50 com faixa de alguma ilha caribenha com nome de incorporadora (Turks and Caicos, por exemplo)?

O Brasil está um espetáculo que faria o Nietzche chorar. O brasileiro é hipócrita disfarçado. Reacionário domesticado, analfabeto social. Brasileiro se acha melhor do que outros quando sua caixa postal acusa mais de vinte e-mails, sendo que metade é propaganda para aumentar o pênis ou emagrecer. Brasileiro faz cabaninha para usar palito e acha que voa alto, mas bate a cabeça no teto rebaixado de gesso. Brasileiro já esqueceu do Ali-Renan e os 40 Ladrões e se concentra no próximo paredão do BBB, deixando espaço livre para que se roube mais. Brasileiro é cara, caramba, cara, caraô.
de copiar.

 

Gabriel Leonardelli

Mamãe Eu Quero!
04/02/2008

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O Carnaval moderno, produto da sociedade vitoriana do século XIX, uma das maiores festas do mundo e um dos nossos principais cartões de visita chega a sua versão 2008. Meus ansiolíticos, por favor!

Não sou contra o Carnaval. Não reclamo nem do barracão da escola de samba que fica perto da minha casa, fazendo com que a ala das baianas esteja na minha sala diariamente, das 18 às 23 horas. Acho o Carnaval um período onde as pessoas, geralmente estão reprimidas e frustradas, têm para se libertar um pouco.

Mas aí, quando a coisa parece estar indo bem, alguém aparece e dá uma fodidinha no bem-estar alheio. Alguém levanta a bunda do trono de ouro e proíbe algo. Claro, não só no Carnaval existem proibições e culpas das mais diferentes hipocrisias. Mas uma festa tida como libertadora, não deveria ser mais total flex?

A antepenúltima (que eu vi, pelo menos), foi o pessoal do Joseph Ratzinger, AKA Bento XVI, fazendo alarde porque o Ministério da Saúde vai distribuir camisinhas e pílulas do dia seguinte. Transar e festejar é ruim, bom mesmo deve ser um punhado de doenças se proliferando e o mais grave: um monte de bebês sendo concebidos ao som de Mamãe Eu Quero, e depois sendo jogados em latas de lixo junto com o lixo gerado pelos foliões.

A penúltima foi a lei que proíbe a venda de bebida alcoólica nas estradas. Cena de Carga Pesada: “– Pedro, é uma cilada! Não vão mais vender pinga nos botecos de beira de estrada!” “– Fica frio, Bino. É só andar uma quadra pra dentro da cidade e a gente compra três garrafas e segue viagem.” Ou seja, tempo, dinheiro e neurônios gastos com mais uma lei estapafúrdia.

E a última foi a proibição que a comunidade judaica conseguiu emplacar, vetando o carro da Viradouro que trataria sobre o Holocausto. Vem cá, ele não ocorreu? Hitler não matou milhões de judeus? É, mas proibindo o carro pode ser que ninguém vá lembrar de semelhante crueldade. População cega, população feliz. Um minuto, por favor. Vou vomitar e já volto.

Pronto. Notem que as três situações carnavalescas supracitadas giram em torno de proibição. Por que o Papa não proíbe os fiéis de serem infelizes? – A partir de hoje fica proibido que as pessoas sejam reprimidas, ou morrerão de câncer.

E uma lei que realmente beneficiasse as pessoas? – Fica instituído que a partir de hoje ninguém mais morre nas filas do SUS, porque a saúde está 100%.

Que tal lembrar a humanidade do que aconteceu, para ver se alguém aprende algo? O Holocausto aconteceu por preconceito, olhem que desgraça aconteceu. Que tal se cuidarmos cada um do seu próprio cu?
Quem é alguém para proibir os outros de serem felizes? Quem é o Ratzinger para proibir tanto, se ele não sabe o que é o amor, o sexo, a família? Se ele não se arrepia com a voz da pessoa amada? É muito fácil proibir sentado no trono de Pedro, cercado de ouro e segredos, enquanto a população luta para sobreviver e ter um pouco de felicidade e dignidade.

Eu estou caindo na estrada. Vou continuar exercendo minha liberdade, já que ela não é só carnavalesca. Não quero mais ninguém proibindo, proibindo, proibindo. Não acredito em paraíso de proibições. Acredito só no que me faz feliz. Mamãe Eu Quero um mundo mais livre.

Luis Ramiro e o céu azul
30/01/2008


O Brasil é um expoente de arte fantástico. Podemos ser o país do Calypso, da Banana Split e da Irislene Stefanelli, mas o que é isso frente a Marília Pêra, Oscar Niemeyer, Chico Buarque e tantas outras personalidades que engrandecem nosso país das bananas. Porém, mesmo com tantos nomes de peso e de talento, gostaria que Luis Ramiro fosse brasileiro.

Explico. Luis Ramiro é um cantor – ou ‘cantautor’ – espanhol, cujas músicas me foram apresentadas por uma amiga que o conheceu em Madrid, antes que ele gravasse seu primeiro disco, ‘Castigado en el Cielo’. Luis Ramiro não é Pop, não é Rock, não é Flamenco, não é Tango, não é cara, nem caramba, nem cara-caraô. Ele é tudo e nada disso com uma pitada de algo mais.

Letras escritas com o coração e com a racionalidade de uma mente brilhante, embaladas por melodias cuidadosamente criadas. Isso é Luis Ramiro, esse madrileño que espero um dia ver lotando estádios de futebol em sua World Tour.

Tudo é encontrado nas canções de Luis. Casais de idosos apaixonados, homens que se separam e se reencontram, prostitutas com os sentimentos escancarados ao invés das pernas, sereias sedutoras, viajantes que deixam saudades, noivas cadáveres, o telhado, o mar, o relógio e a lua.

As mulheres de Luis Ramiro, assim como as de Chico Buarque, têm muito mais a oferecer do que um ou dois buracos. Encontramos ainda os amigos de Luis, sua família, seus sonhos e toda a sua coragem ao escrever canções quase autobiográficas, uma vez que escrever é um desmedido ato de coragem. Para as mulheres, Luis compôs ‘Perfecta’, um dos hinos mais lindos ao sexo frágil que é mais forte que o cosmos. Tem ainda a lisérgica e catártica ‘Esdrújulo’, os números e a vida de ‘Cuenta Conmigo’, a dor de existir de ‘Miguelito’ e de ‘Ana Y La Lluvia’, a sagacidade de ‘Los Siete Pecados’ e a podridão do mundo de ‘Rouco Varela’ e de ‘Esta No Es Una Canción Para Cambiar El Mundo’. Aos que se rendem ao seu lirismo e melodia, essa é uma pequena amostra do que o mundo de Luis oferece.

Luis Ramiro deveria ser brasileiro, pois assim o teríamos mais perto. Luis Ramiro deve ser notícia mundial, para que possamos preencher nossas mentes sem a Paris Hilton e a Britney. Luis Ramiro deve estourar no mundo inteiro, para que sua música possa chegar aos ouvidos das vítimas da estupidez da guerra. Luis Ramiro deve ser eterno, para que, em qualquer tempo, quando se apalpar o próprio peito procurando o amor que deveria estar ali, ou durante beijos onde a egocentria é deliciosamente altruísta, se tenha uma perfeita trilha sonora. Para Luis Ramiro, a fronteira é o céu azul.

“Quantos pescoços quebraram por olhar pra trás. Quanta roupa estendida caiu no mar. E tu no aeroporto perguntando: saem vôos a Nunca Jamais?”
Página oficial: http://www.luisramiro.com

Aqui as letras para acompanhar com as músicas, ou simplesmente acompanhar-se de ótima leitura: http://www.luisramiro.com/letras/letras.php

E, claro, no You Tube. Digite Luis Ramiro e divirta-se muito!