Inicia em março o Instrumental RS
23/02/2010

Pata de Elefante, Quartchêto e Camerata Brasileira

dividem o palco em turnê nacional em março


Primeira apresentação acontecerá em Florianopolis

O gaúcho de hoje é urbano, moderno, cosmopolita e traz nas raízes culturais a mistura de etnias italiana, polonesa, alemã, africana, indígena, espanhola, cigana e portuguesa-açoriana, entre outras. O projeto Instrumental RS, com patrocínio do programa Petrobras Cultural e apoio da Lei Federal de Incentivo à Cultura foi idealizado justamente para mostrar esse viés e o que está acontecendo hoje no caldeirão do sul do Brasil. Serão seis shows em seis cidades brasileiras onde três importantes e diversos grupos instrumentais de Porto Alegre participam: Pata de Elefante- rock, Quartchêto- raízes regionais e Camerata Brasileira- choro. Em cada uma das cidades os músicos irão ministrar workshop para estudantes, músicos e interessados. Ao longo da turnê, que se inicia dia 3 de março em Florianópolis, está prevista a gravação de um CD em SMD, com tiragem de três mil cópias. As músicas serão disponibilizadas na internet para uso não comercial. Florianópolis (03/03), Curitiba (05/03), Tatuí (07/03) Rio de Janeiro (09/03), Belo Horizonte (11/03) e Porto Alegre (17/03) são as cidades contempladas.
O Instrumental RS vem para mostrar essa peculiar característica do sul do Brasil, numa viagem de sons, história, cultura, colonização e urbanidade, em sonoridades complexas e que traduzem a ausência de fronteiras culturais que forma o nosso caldo cultural. A produção é da Liga Produções.

OS GRUPOS
Pata de Elefante

foto: Danilo Christidis

O trio se diferencia por fazer rock instrumental com ênfase nas melodias. São “canções instrumentais” que atingem em cheio ao público acostumado a ouvir música com vocal. Gabriel Guedes e Daniel Mossmann se revezam entre guitarra e baixo, imprimindo a dupla sonoridade característica do grupo, sustentada pela bateria de Gustavo Telles. Formada em 2002, a Pata de Elefante tem dois álbuns lançados, circula nos principais festivais independentes nacionais, já realizou turnês em todas as regiões do Brasil e é  considerada pela crítica especializada uma das melhores bandas de rock  do país. No show, o grupo mostra seu rock sem vocais, dançante e explosivo.  No fim de 2009 conquistou o VMB (MTV) na categoria Melhor Banda Instrumental e lançou o clipe de “Um olho no fósforo, outro na fagulha”. Está presente na caixa com 16 Cds recém lançada pelo Rumos Música, do Itaú Cultural, incluindo artistas e grupos do Uruguai, Argentina, Paraguai, Chile e Brasil. O lançamento do terceiro disco esta previsto para abril e sairá  pelo projeto Álbum Virtual, da Trama e também  em formato físico.

Quartchêto

foto: Inês Artigoni

O Quartchêto é uma unanimidade e está conquistando o Brasil de Norte a Sul com seu som refinado e harmonioso, que mistura os diversos ritmos da música gaúcha ao jazz, num resultado contemporâneo e universal.  A formação inédita que inclui trombone, acordeão, violão e percussão, viaja com refinamento e bom humor por xotes, vanerões, chamamés, chacareras, milongas, rancheiras e bugios. O grupo aparece como destaque no documentário “O Milagre de Santa Luzia” e também está presente na caixa com 16 Cds que acaba de ser lançada pelo Rumos Música, do Itaú Cultural, incluindo artistas e grupos do Uruguai, Argentina, Paraguai, Chile e Brasil. Inovador, criativo, diversificado. Assim é o trabalho que o grupo vem produzindo ao longo dos anos. Segundo Hilton Vaccari, violonista e compositor, as músicas surgem de experimentações, ou seja, o grupo se reúne e vai tocando, criando, deixando a música fluir, se misturar. O som ímpar vem da união do acordeão e do trombone e da mistura de instrumentos com tantas nacionalidades: a percussão da África, o trombone da Alemanha, a gaita da Itália e o violão da Espanha.  Muitas apresentações e turnês marcam a carreira do grupo, que percorreu o país através do projeto Natura Musical e que acaba de lançar seu novo CD “Bah”.

Camerata Brasileira

foto: Marcello Campos

O calendário já marca 8 anos. Somando, dá bem mais, basta contabilizar. Enquanto a maioria dos conjuntos de choro aposta no purismo de uma suposta “originalidade”, os porto-alegrenses da Camerata Brasileira prosseguem com a sua estética sonora inquieta, responsável por dois elogiadíssimos CDs, centenas de shows no Brasil, participação em eventos musicais no exterior e muitos prêmios, entre outros feitos. Essa proposta criativa, definida por Moysés Lopes, um de seus fundadores, como um “grupo de música instrumental com pés no Brasil e ouvidos no mundo” tem nas origens do estilo apenas a base para um trabalho desafiador, no qual os ramos e frutos são tão fundamentais quanto a raiz. Samba, jazz, baião, maracatu, improvisação, experimentalismo e até psicodelia, além de uma “bossa” quase rock, meio acústica, meio elétrica. Pixinguinha, Hermeto Paschoal, Garoto, Hamilton de Holanda, Baden-Powell, Ariel Ramirez e Felix Luna, catalisados em releituras surpreendentes para clássicos e contemporâneos mas também nas composições próprias que estão aí para confundir os rótulos e dar a cara ao tapa, mas sem fugir da briga. Os resultados são imprevisíveis e resgatam a essência do choro, que antes de tudo é um híbrido sem fronteiras. “Não há como se ignorar que música brasileira tem suas bases na integração das sonoridades de pelo menos três continentes, já que “o samba é made in Brazil, o violão vem da Europa e os tambores são africanos”, salienta Moysés Lopes. Pura provocação, com todo o respeito.
Para 2010 a Camerata Brasileira está organizando sua primeira temporada européia aproveitando que foi selecionada pelo Instituto Cultural Hispânico Brasileiro para realizar uma série de shows na Espanha. A idéia é esticar a turnê por Portugal, França e Dinamarca.

DATAS, HORÁRIOS E LOCAIS – todos os shows têm entrada franca, exceto o do Rio de Janeiro

FLORIANÓPOLIS
Dia 3 de março, 16h – Workshop no Centro de Eventos da UFSC – Sala Goiabeira
20h – Show no Centro de Eventos da UFSC – Auditório Garapuvu – UFSC – Campus Reitor João David Ferreira Lima – Bairro Trindade

CURITIBA
Dia 4 de março, às 20h – – Workshop no Wonka Bar- Rua Trajano Reis, 326 – Centro
Dia 5 de março, às 23h – Show no John Bull Music Hall – Rua Engenheiro Rebouças, 1645 – Rebouças

TATUÍ
Dia 6 de março, às 17h – Workshop no Conservatório Dramático e Musical de Tatuí – Rua São Bento, 415 – Centro – Tatuí, SP
Dia 7 de março, às 20h – Show no Conservatório Dramático e Musical de Tatuí

RIO DE JANEIRO
Dia 9 de março – Sala Baden Powell – Avenida Nossa Senhora de Copacabana, 360 – Rio de Janeiro – RJ

BELO HORIZONTE
Dia 11 de março, às 16h – Workshop no Teatro Izabela Hendrix
21h – Show Teatro Izabela Hendrix – Instituto Metodista Izabela Hendrix – Rua da Bahia, 2020
Bairro Funcionários – Belo Horizonte/ MG

PORTO ALEGRE
Dia 17 de março, às 16h – Workshop no Auditório Dante Barone- Assembléia Legislativa RS – Rua Praça Marechal Deodoro 101 – Centro
20h – show no Auditório Dante Barone- Assembléia Legislativa RS

Van Gogh do preto e branco
12/10/2009

Luciano Leães Festival Antuerpia_Belgica

É difícil falar de alguém que muitos ja falaram e com tanta propriedade. Digno de matérias em revistas especializadas, o pianista porto-alegrense Luciano Leães é uma referência neste instrumento, no Rio Grande do Sul. Conheci Luciano Leães num show intimista com a Locomotores, em Ivoti/RS e fiquei impressionada com a performance e técnica do músico de 32 anos. Alguem que avassala o instrumento tanto solo, quanto com as quatro bandas com quem atua: Pata de Elefante, Acústicos & Valvulados, Locomotores e Fernando Noronha & Black Soul; esta última, responsável pela expansão de seu trabalho a novos horizontes.

Autodidata, Luciano declara que quer estudar mais sobre o instrumento que escolheu. Com humildade, diz que por não ter uma formação didática, os que conhecem a sonoridade percebem isso no toque das teclas. “Os pianistas de blues das antigas tocavam em pianos caindo aos pedaços, muitas vezes os que eram jogados fora, por exemplo”, exemplifica. O músico cita ainda o pintor Van Gogh, da qual se diz fã: “ele criou um estilo próprio, independente da academia”.

Para melhor expressar o que representa este artista, influenciado por seus tios a ingressar na arte de tocar piano ainda criança, a + movimento fez uma entrevista que pode responder muito sobre Luciano Leães. Baseado na simplicidade e na genialidade de Van Gogh, Luciano ao invés de colorir telas, consegue emocionar com teclas de apenas duas cores: preto e branco.

Leães A&V P&B

Qual a principal diferença entre as bandas com quem tocas?

Acho muito difícil falar em diferenças. Não fico analisando muito esse tipo de coisa, pois na música tudo rolou de forma muito natural para mim. Os músicos das bandas são muito amigos uns dos outros e passamos muito tempo juntos, mesmo quando não temos show. Os Acústicos vão gravar uma música para uma rádio e aparece o pessoal da Pata e dos Locomotores. A Fernando Noronha & Black Soul vai fazer um show e recebe como convidados a galera da Pata, dos Acústicos e dos Loco. Acho que isso acaba fazendo uma confusão saudável na minha cabeça.

Mas é claro que dá pra perceber uma diferença na sonoridade das bandas. O que define isso? Não saberia dizer com certeza, mas sem dúvida os músicos influenciam isso diretamente.  Digo isso porque a minha forma de tocar acaba sendo espontaneamente influenciada pela banda com quem estou tocando. Dependendo da combinação das peças a sonoridade pode mudar bastante. Acho que a única situação onde eu não me preocupo com nada é quando estou tocando minhas músicas no meu trabalho solo.

Mesmo tendo muitas influências em comum, a bagagem que cada um traz é diferente e muitas vezes o processo de composição, a forma de tocar ao vivo e até o gosto pessoal na hora fazer soar o instrumento e interagir abre uma gama enorme de possibilidades que é melhor nem tentar explicar. Música é algo mágico. Se tentarmos equacioná-la perderá a metade da graça e não chegaremos a lugar algum. O que eu sei é que me divirto muito e gosto bastante do som que as bandas produzem.

Desde que idade toca piano? Como começou? O que te fez chamar a atenção para este instrumento?

Foi pelos sete anos de idade que eu toquei os primeiros acordes. Na casa da minha avó paterna tinha um piano de parede que muitas vezes embalava as festas de família, principalmente natal e ano novo. Lembro dos meus dois tios pianistas que tocavam o instrumento. O legal é que um era estudado e lia muito bem enquanto o outro tinha muita facilidade para tocar de ouvido. Eu adorava ficar assistindo eles tocando. Acabei me apegando ao piano.

Foi questão de tempo para eu começar a “brincar” com as teclas e aprender algumas músicas com meus tios. Daí em diante a paixão pela música cresceu cada vez mais. No começo da adolescência eu já gostava muito de Rolling Stones e outras bandas de rock que me levaram a ouvir Chuck Berry. Ficava tentando tirar aquele piano que eu ouvia lá no fundo das gravações do Chuck, que vim a descobrir mais tarde que era do Johnnie Johnson. Numa viagem a Argentina, comprei um CD solo do Johnnie e então uma das minhas grandes diversões na infância e adolescência passou a ser tentar tocar blues. Daí em diante comecei a conhecer Memphis Slim, Billy Preston, Ray Charles, Professor Longhair, Jimmy Smith, Otis Spann, etc.

Fale-me um pouco da tua trajetória, qual tua primeira banda e como foi parar nas que atua hoje.

Na minha adolescência eu costumava tocar sozinho e não me juntava com outros amigos para tocar. Ficava mais em casa mesmo. Além de eu não ter sido um cara muito extrovertido no colégio, era muito difícil encontrar pessoas que gostassem do mesmo som que eu.  Isso aconteceu nos anos 80 e o pessoal do colégio tava muito ligado em Hard Rock e numa sonoridade mais oitentista mesmo. Como eu tocava basicamente blues e rock clássico não me misturava muito.

Um dia eu fui rolar um som com dois primos meus e senti um clima muito legal. Tocávamos uns sons mais das antigas misturados com algumas músicas mais conhecidas, que nos garantiam alguns shows em festas, projetos, etc. Se não me engano meu primeiro show “oficial” foi no Teatro de Arena num projeto chamado 10001 Noites. Eu devia ter uns 16 anos.

Com o tempo a banda foi se desmanchando, as responsabilidades batendo à porta e começou a chegar a hora da maioria “escolher uma profissão”. Eu e um dos meus primos, o Guilherme Pacheco (que hoje toca na  Alter Ego), seguimos tocando num esquema de piano e guitarra onde os dois cantavam. O repertório era uma mistura do que eu e ele gostávamos. Tive então a chance de tocar os meus “blues”.

FERNANDO NORONHA & BLACK SOUL – Numa dessas apresentações o Fernando Noronha apareceu e rolou um som com a gente. Algumas semanas depois eu já estava caindo na estrada com ele e a Black Soul. Essa parceria já dura mais de 11 anos e com a Black Soul tive a oportunidade de crescer muito como músico, viajar pelo mundo e tocar no mesmo palco de muita gente que eu achei que nunca veria nem ao vivo.

LOCOMOTORES – Um dia eu estava tocando com o Noronha num bar, e o Alexandre Papel (batera dos Locomotores e ex-integrante da Black Soul) apareceu por lá. Quando parei de tocar ele me disse que estava se juntando com um pessoal para montar uma banda de rock com composições próprias.  O Papel é meu irmão de longa data, desde os primeiros shows da Black Soul. Só o fato de ele estar envolvido já seria o suficiente para eu entrar no barco. Ele ainda me disse que o Márcio Petracco (ex TNT e meu parceiro da banda Os Buscapé, que tocava clássicos do rock em versão folk, mas folk mesmo, com bandolim, banjo, pedal steel, tábua de lavar roupa e afins), que é outro amigo de longa data, também estava nessa. Eu disse que tava dentro sem pensar duas vezes. Alguns dias depois já estavam os três reunidos junto com o Fuzzo (ex Malvados Azuis) e o Bocudo (ex Cachorro Grande), dois grandes músicos que eu nem conhecia muito bem na época. Enfim, os “ex” se juntaram e alguns meses depois estavam reunidos em estúdio para gravar o primeiro disco da banda.

ACÚSTICOS & VALVULADOS – Algum tempo depois de montar os Locomotores com os guris, o Rafael Mallenotti me ligou convidando para eu gravar o DVD Ao Vivo e a Cores dos Acústicos e Valvulados com eles. Já conhecia o pessoal da banda há muito tempo, tendo inclusive quase tocado com eles numa apresentação em 2000, na Casa de Cultura Mário Quintana, quando eu recém havia entrado na Black Soul. A gravação foi muito mais do que apenas um registro de um show para lançar um DVD. Foi uma grande celebração entre amigos. Enfim, uma grande festa. Algumas semanas depois da função toda eles me convidaram para entrar na banda e cair na estrada. Aceitei na hora, pois sempre admirei o trabalho e as pessoas que tocam na banda.

PATA DE ELEFANTE – Já na Pata a história começou no primeiro disco quando eles me convidaram para tocar fender rhodes em uma faixa. O Prego é um dos meus melhores amigos. Mas daqueles de sair pra comer churrasco praticamente toda semana (olha o colesterol jovem!). O Dani é meu companheiro de Acústicos e Valvulados e outro cara que admiro muito tanto como músico quanto pessoa. O Gabriel além de ser o guitarrista do meu projeto solo também é um cara que eu conheço há muito tempo e com quem tenho uma grande afinidade musical. Fiquei feliz quando me chamaram para gravar o segundo disco. Tocar ao vivo com a Pata de Elefante é uma experiência musical única, e volta e meia acabo tocando com eles.  O clima que rola com eles no palco é indescritível! Recentemente gravei o terceiro disco que está ficando tão bom quanto os anteriores. E olha que isso parecia ser uma tarefa bastante difícil.

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Quais tuas influências musicais?

Aprendi a tocar piano ouvindo muito blues. Ainda hoje é muito fácil me pegar tocando blues em casa, mas daqueles bem antigos e surrados. Isso acaba sendo bom, pois não me deixa fugir muito da fonte que bebi para aprender a tocar piano. Conseqüentemente acabei sendo muito influenciado pelo soul e  R&B . Para expressar isso em nomes, poderia citar como grandes influências o Ray Charles, Billy Preston, Jimmy Smith, Jimmy McGriff, Memphis Slim, Otis Spann, Johnnie Johnson, Dr John, Stevie Wonder, Donny Hathaway, Ike Turner, Little Richards, Fats Domino, etc.

O Rock também é uma influência muito forte na minha formação como músico.  Sempre gostei muito de ouvir os pianistas/organistas das bandas de rock como Ian McLagan (Faces), Ian Stewart (Stones), Nicky Hopkins (Stones), Steve Winwood (Spencer Davis, Blind Faith), Billy Preston (Stones/Beatles), Leon Russel (Joe Cocker), etc.

Apesar de já ter sido meio ortodoxo em relação ao blues e ao rock, hoje em dia estou mais aberto para ouvir todo tipo de música. Tudo pode te influenciar positivamente. Outras formas de expressão artísticas também podem te estimular musicalmente. É importante deixar o preconceito de lado e procurar ouvir de tudo para crescer. Trilhas de filme tem me influenciado muito nos últimos tempos, por exemplo. Tenho aprendido muito com o Henry Mancini, Nino Rota, Goran Bregovic, etc.

Há muitas bandas de rock, ou mesmo pop instrumentais hoje, como é a Pata de Elefante. Como tu analisas essa abertura de espaço para este tipo de som?

Acho muito legal o espaço que o rock e a música instrumental conquistaram. Acredito que a internet tenha tido um papel importante nesta abertura de espaço, pois de alguma forma estas bandas conseguiram “gritar” alto o suficiente para chamar atenção de grandes grupos e mostrar que elas também podem atingir um público numeroso, ecoando até em mídias do mainstream. Hoje em dá pra ver banda de rock com espaço até no Faustão. Ou seja, o rock está atingindo um público cada vez maior.

Por outro lado, acho que assim como tem gente que colabora muito para o crescimento do movimento e sabem valorizar os músicos, também é fácil encontrar muita banda boa sendo explorada e botando sua arte à disposição de pessoas que aproveitam este movimento para ganhar uma grana em cima delas.  Por fazerem o que gostam, acabam não sabendo reverter isso em uma valorização do seu trabalho. Acho que isso acontece porque na música trabalho e diversão andam sempre juntos e isso fica um pouco confuso na cabeça do músico. Mas chega uma hora que as contas começam a apertar e tu tens que aprender a valorizar o teu trabalho na marra. Afinal, se não pagares o aluguel, tu acaba no olho da rua. rs

Há futuro para bandas deste gênero?

Se eu falar que não tem eu tô ferrado (risos). Claro que tem. Mas é preciso acreditar e se jogar de cabeça. Tem que levar o trabalho muito a sério. Além disso, também vale considerar que junto com o trabalho vêm muitas coisas boas que acabam fazendo tudo valer a pena. Se eu já vivi só de blues no Brasil, mesmo que com muito esforço, com certeza dá pra viver de rock.

Luciano L..

Tu estás em diversas vertentes do rock, blues, em suas origens mesmo. Tocas na Black Soul, banda de apoio de Fernando Noronha, com Acústicos e Valvulados, puro rock n´roll, Locomotores também e na Pata de Elefante, instrumental, como dissemos na questão acima. Um prato cheio para aplicar todos os teus conhecimentos no piano, não é?

Essa é uma confusão que todo mundo acaba fazendo sobre a Black Soul. Na verdade Black Soul e Fernando Noronha é tudo a mesma coisa. A gente trabalha como uma banda normal. Na verdade a FN&BS é bem mais que uma banda: somos uma família.

Sobre tocar com todas essas bandas ser um prato cheio para aplicar os conhecimentos no piano, não tenho dúvidas disso! Quanto mais eu tocar e explorar os diferentes estilos que gosto, melhor. Aprendo muito tocando com diferentes bandas e músicos. A gente sempre tem muito pra aprender.

Fale dos maiores shows de tua vida.

Vou citar os que eu lembrar agora de cabeça: a estreia do meu trabalho solo no Festival Internacional de Blues de Ribeirão Preto (SP) em agosto deste ano (2009).

A abertura do show do BB King em 2001 quando fiquei frente a frente com o rei do blues e ouvi palavras de incentivo pra seguir tocando.

A abertura do show do Chuck Berry esse ano (2009), antigo parceiro do Johnnie Johnson que foi meu grande ídolo quando comecei a aprender a tocar piano. (O mais legal desse show foi que depois de toda a função convidei o pianista do Chuck pra ir jantar conosco pra comemorar o sucesso do show e fiquei amigo do cara).

Todas as oportunidades que tive de tocar com os bluesmen lá da gringa como Little Jimmy King, Carey Bell, Phil Guy, Magic Slim e Hubert Sumlin’.

A gravação do DVD dos Acústicos e Valvulados Ao Vivo e a Cores, que como eu já disse foi uma festa muito bonita.

A ultima segunda maluca no Opinião, onde ao final do show juntamos as bandas Locomotores e Pata de Elefante para tocar alguns clássicos com direito a duas baterias e tudo mais.

Além disso, posso citar diversos shows inesquecíveis nas turnês com a Fernando Noronha & Black Soul: Festival Internacional de Jazz de Montreal, Festival Internacional de Blues de Tremblanc, Festival Rythm’n’Blues na Antuérpia para milhares de pessoas bem no centro histórico da cidade, Festival Internacional de Jazz no Chile na beira do Rio Mapocho e os shows na Polônia onde a galera é completamente enlouquecida por blues e rock.

Que eu lembre no momento é isso.

Teus projetos futuros, quais são?

Além de continuar tocando com as bandas e trabalhar compondo trilhas para filmes, também estou dedicando mais tempo para o meu trabalho solo. Estou gravando algumas músicas minhas e já estou pensando em uma forma de disponibilizá-las quando estiverem prontas.

A estréia desse projeto não poderia ter sido melhor. Abri o Festival Internacional de Blues de Ribeirão Preto que estava comemorando 20 anos de história esse ano. Pra quem não sabe já passaram por lá nomes como Buddy Guy, Albert Collins, Junior Wells e Etta James. Foi muito  emocionante e divertido, sem falar que a aceitação do público e dos músicos foi muito boa. Vale citar que conto com três grandes músicos nessa minha nova empreitada: Alexandre Papel (Locomotores), Gabriel Guedes (Pata de Elefante) e Edu Meirelles (Severo em Marcha). Muito legal tocar com esses caras.

gravaçao dvd acusticos piano

Fale um pouco de ti, o que lê, o que ouve, o que faz quando não está tocando, gosta de silêncio, agito. Resuma Luciano Leães como um simples mortal…

Mortal e simples o tempo todo!!! Adoro silêncio e barulho. Depende da hora. O silêncio pode ser mais barulhento que o barulho de vez em quando (risos).

Sobre leituras, tem fases que leio muito e outras que fico um bom tempo sem ler. Recentemente li “Olho por Olho”, um livro do Lucas Figueiredo cujo assunto principal é a ditadura no Brasil (só fala que sente falta dos tempos da ditadura quem não faz a menor idéia do que aconteceu naquela época) e “Uma Temporada no Inferno com os Rolling Stones”, que narra a gravação do disco Exile on Main Street em Villa Nellcôte, na França. Também reli “De Vagões e Vagabundos” do Jack London. Na edição que eu comprei tem um conto bem interessante dele que se chama “Os Mascotes de Midas”.

Sobre música, ela está presente praticamente o tempo todo na minha vida. Adoro velharia, mas também procuro buscar novidades de tempos em tempos.

O que tenho escutado? Numa viagem recente que eu fiz comprei uns CDs que estavam em promoção num balaio para ouvir na estrada: Quincy Jones, James Brown, Herbie Hancock e Ike & Tina Turner. Demais!

Também comprei o Álbum Branco dos Beatles remasterizado que tenho escutado todo dia. Fiquei tão viciado com essa novidade que ontem comprei o Revolver e o Let It Be (principalmente por causa das teclas do Billy Preston).

Fale-me do que sente quando está sobre o palco.

Indescritível, mas é um dos poucos lugares onde eu realmente me sinto em casa.

Onde nasceu, qual idade, onde moras, estudas, formação…

Porto Alegre em 1977 (32 anos), Porto Alegre, Segundo grau completo,

Autodidata

Viajastes recentemente para a Europa. Como voltastes de la? O que acrescentou exatamente em tua carreira?

As turnês são muito importantes. Nesta última da Fernando Noronha & Black Soul foi rodamos mais de 8000 km tocando na Polônia, República Tcheca, Bélgica, Holanda, Espanha e França. Tocamos em festivais e casas que abriram portas para organizarmos em 2010 o que será a maior tour que já fizemos.  Essas turnês servem não apenas para crescermos como músico, mas também como pessoa. É uma aula de convivência. Se hoje em dia a Black Soul é uma família eu garanto que as viagens para o exterior são muito importantes para isso, pois na estrada todo mundo está na mesma e tem que jogar junto.

Conheça mais em:

www.myspace.com/lucianoleaes

www.fernandonoronha.com

Cláudia Kunst